O que é Necrochorume e quais são os seus impactos ao meio ambiente?

Descubra o que é o Necrochorume e como ele é gerado. Veja também, as leis que regulamentam a construção de cemitérios e como tratar o Necrochorume.

Na postagem anterior, falamos que o Chorume é caracterizado por uma substância líquida que resulta do processo de putrefação, ou seja, o apodrecimento de matérias orgânicas.

Falamos também sobre seus impactos e de que forma ele pode vir a poluir e degradar o meio ambiente.  Apresentamos algumas técnicas de tratamento e como elas podem vir a auxiliar no descarte desse líquido.

Mas não são apenas os resíduos que durante o seu processo de decomposição liberam gases que podem ser maléficos ao meio ambiente.

Além do Chorume, também existe o Necrochorume.

Mas afinal, o que é o Necrochorume e como ele pode vir a impactar o meio ambiente?

O que é o Necrochorume?

Podemos definir Necrochorume como um líquido percolado resultante do processo de decomposição de cadáveres.

Esse líquido (viscoso) formado pelo processo de decomposição possui uma cor castanho-acinzentada, sendo formado por:

  • Sais Minerais;
  • Água;
  • Substâncias Orgânicas Degradáveis;
  • Elevada quantidade de vírus e bactérias; e
  • Outros Patógenos.
Contaminação por Necrochorume.

 

Vale salientar que no Necrochorume também podem ser encontrados formaldeídos e metanol (utilizados no embalsamento dos corpos), além de metais pesados (estes oriundos dos adereços dos caixões) e resíduos hospitalares (medicamentos).

O necrochorume se forma cerca de 6 meses após o óbito. É nesse período que o corpo inicia a fase de dissolução das partes moles, formando e liberando o necrochorume.

Para cada quilo de massa corporal, é gerado em torno de 0,6 l de necrochorume (Santos et al., 2015).

No entanto, seu período de liberação pode variar de acordo com a localização do cadáver, as condições do solo (como umidade e temperatura), envoltura do corpo em material biodegradável, dentre outros.

Como o necrochorume é gerado?

Esse processo ocorre, pois os cadáveres, dependendo das condições do ambiente, podem sofrer processos destrutivos como autólise e putrefação.

No processo de autólise, as células do corpo são dissolvidas por enzimas do próprio corpo.  Já na putrefação, ocorre a decomposição dos órgãos e tecidos por micro-organismos, o que ocasiona a ocorrência e liberação do:

  • Gás Sulfídrico;
  • Dióxido de Carbono;
  • Metano;
  • Amônia;
  • Enxofre;
  • Fosfina;
  • Cadaverina; e
  • Putrescina.

Nascimento Filho e Colaboradores (2001) em sua pesquisa destacam que:

Se a umidade do solo for alta, pode ocorrer a saponificação, que é um processo que retarda a decomposição do cadáver. Nos cemitérios brasileiros, em razão do clima quente e úmido, e da invasão das sepulturas por águas subterrâneas e superficiais, a saponificação é comum.

Impactos do Necrochorume no Meio Ambiente

A grande preocupação é o impacto que o Necrochorume causa ao meio ambiente. Pois antigamente os cemitérios eram construídos sem planejamento e em locais onde o subsolo é vulnerável, ocorrendo assim a inundação dos túmulos devido a drenagem precária.

Processo de Necrochorume.

Isso ocorre quando a água da chuva, após atravessar os túmulos, cai na rede pluvial urbana e consequentemente indo para corpos d’água, contaminando assim, as águas superficiais com as substâncias presentes no necrochorume.

Recentemente, Pesquisadores da Universidade de Santa Maria coletaram amostras de água subterrânea presente no entorno dos cemitérios da região (com sepultamento recente) e puderam avaliar a presença dos seguintes contaminantes:

  • Íons de Cloreto e Nitrato;
  • Vírus e Bactérias; e
  • Presença de Necrochorume.

Vale salientar que, em cemitérios onde o lençol freático é pouco profundo, as chances de contaminação das águas subterrâneas são grandes.

Desde o século 18, as pessoas tem uma certa preocupação quanto a proximidade dos cemitérios das cidades ou residências.

No entanto, a preocupação com a poluição e os impactos desses compostos liberados durante a decomposição é recente, ou seja, começou-se a realizar ensaios, estudos e publicações relacionados a esses impactos apenas em 1998.

Estudos apontam que em 1998, a Organização Mundial da Saúde (OMS) realizou publicações enfatizando que os cemitérios viriam a ser uma fonte de poluição, podendo ainda causar impactos ambientais no solo e lençol freático.

Esses impactos estariam relacionados com a liberação de substâncias orgânicas e inorgânicas e micro-organismos patogênicos.

Entre as substâncias geradas na decomposição de cadáveres, esta a Cadaverina e a Putrescina.
Entre as substâncias geradas na decomposição de cadáveres, esta a Cadaverina e a Putrescina.

Logo após esses estudo, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), criou as resoluções: 335/2003 e 368/2006 e 402/2008, estabelecendo critérios para a implantação de cemitérios, visando proteger os lençóis freáticos da infiltração do necrochorume, e impôs um prazo para que cemitérios já implantados se adequassem às novas regras.

E desde então, a construção dos cemitérios deve seguir as especificações e critérios estabelecidos por essas resoluções, além de serem monitoradas pelos órgãos competentes.

Mas ainda há cemitérios irregulares e que precisam se adequar a essas legislações.

Como resolver isso?

Uma solução encontrada seriam os tratamentos para o Necrochorume e adequação às leis vigentes.

Como tratar o Necrochorume?

Logo após a publicação da OMS, Silva (1998) realizou uma pesquisa em mais de 600 cemitérios brasileiros (públicos e privados) e constatou que cerca de 75% desses cemitérios estavam  repletos de negligências e irregularidades, o que acarretou em diversos problemas ambientais e sanitários.

De la para cá, uma série de estudos, pesquisas e cobranças vem sendo realizadas.

E dentre estas pesquisas, esta a busca por métodos e tecnologias de tratamento dos recursos hídricos contaminados pelo necrochorume

Hoje existem uma série de métodos e tratamentos para o Necrochorume e dentre esses métodos temos:

  • Filtros biológicos;
  • Pastilhas;
  • Mantas Absorventes; e
  • Métodos Alternativos.

É importante salientar que para utilizar esses métodos e tratamentos, os cemitérios devem possuir uma estrutura ecologicamente correta e que siga, é claro, as Resoluções CONAMA já citadas.

Para o tratamento com filtros biológicos, antes de instalar os filtros, deve-se aplicar uma manta impermeabilizante (abaixo dos túmulos). A manta tem como objetivo auxiliar e proteger as águas subterrâneas da contaminação pelo necrochorume.

Em seguida, serão instalados drenos que tem como objetivo coletar e  conduzir o necrochorume e as águas pluviais até os *filtros biológicos e quando estes entram nos filtros, irá ocorrer a degradação em meio poroso (pedras, cascalhos, concreto).

*A instalação desses filtros é determinada no Art. 8º da Resolução CONAMA 335/03.

No entanto, a utilização desse método é mais comum em cemitérios parques, ou seja, para outros tipos de cemitérios é recomendado utilizar outros métodos.

Entre os outros métodos, temos as Pastilhas e Mantas Absorventes. As Pastilhas são bactérias consumidoras de matéria orgânica sintetizadas em esporos e então agrupadas em forma de pastilhas.

Segundo Francisco e Colaboradores (2016):

Essas pastilhas são então colocadas nas urnas funerárias junto ao corpo, próximo ao corpo e na base da coluna. Após sua colocação, essas colônias de bactérias são ativadas conforme é formado e liberado o necrochorume, de maneira que consomem os compostos orgânicos de difícil metabolização como gorduras, óleos, graxas e lipídeos, transformando-os em
dióxido de carbono e água.

Já a manta consiste em um plástico impermeável, que fica situado no fundo do túmulo ou urna.

Essa manta possui uma camada de celulose em pó, que quando entra em contato com o necrochorume (a medida que o corpo vai liberando o líquido) transforma-se em um gel que irá reter o líquido e impedir que o mesmo extravase.

A manta irá permanecer na urna pelo tempo necessário à decomposição (3 a 5 anos) sem contaminar a urna, a sepultura e o meio ambiente como um todo.

Existem ainda outras técnicas de tratamento, Francisco e colaboradores (2016) apresentam o caso de um cemitério em Curitiba/PR.

Nesse cemitério, há um projeto em desenvolvimento (projeto em teste) para criar uma estação de tratamento (de forma anaeróbia) para o necrochorume.

As cargas orgânicas do necrochorume serão removidas (por meio do processo anaeróbio) em um tanque fechado, fazendo com que o necrochorume seja tratado e reutilizado para irrigação da terra do próprio cemitério.

Podemos ainda citar outros tratamentos como o congelamento e biodegradação (congelamento do corpo por nitrogênio líquido) e o processo de cremação. No entanto, cada tratamento irá depender do tipo de cemitério e contaminantes gerados.

Mas o importante e fundamental é que se estude e busque alternativas para tratar esse líquido de forma que o mesmo não venha mais impactar o meio ambiente.

Fontes Consultadas:

BRASIL, RESOLUÇÃO CONAMA nº 335, de 3 de abril de 2003.Dispõe sobre o licenciamento ambiental de cemitérios. DOU no 101, de 28 de maio de 2003, Seção 1, páginas 98-99. 2003, 5 p.
BRASIL, RESOLUÇÃO CONAMA nº 368, de 28 de março de 2006.Altera dispositivos da Resolução no 335, de 3 de abril de 2003, que dispõe sobre o licenciamento ambiental de cemitérios. DOU no 61, de 29 de março de 2006, Seção 1, páginas 149-150. 2006, 2 p.

BIANCHINI,Michele; DELATORRE, Ana Flávia; FRACASSO, Mariana; NECKEL, Alcindo,BERTOLDI, Tauana. Contaminação de Solos por Cemitérios: Um Problema de Saúde Pública. VII Congresso Brasileiro de Gestão Ambiental
Campina Grande/PB. 2016, 15 p.

COSTA, Bruno. Sueca desenvolve método de congelamento a seco, que transforma cadáver em pó. Correio Brasiliense: Ciência e Saúde. 2009.

FRANCISCO, Agatha Melo; SILVA, Amanda Karolyne Godoi; SOUZA, Caroline Soares; SANTOS, Fernanda Cristina Storte. Tratamento do Necrochorume em Cemitérios.(Atas de Saúde Ambiental). Faculdade Metropolitanas Unidas (FMU).São Paulo. 2016, 17 p.

FILHO, Irajá do Nascimento;MUHLEN, Carin Von; CARAMÃO, Elina Bastos. Estudo de Compostos Orgânicos em Lixiviados de Aterros Sanitários por EFS e CG/EM. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre. 2001, 6 p.

SANTOS, Pedro José Aleixo;GAMA, Claudeam Martins; CAVALCANTE, Lívia Poliana Santana; LIMA, Vera Lúcia Antunes. Avaliação de Impactos Ambientais: Estudo de caso no Cemitério Público do município de Queimadas - PB. Revista Monografias Ambientais. Universidade Federal de Campina Grande, UFCG. 2015, 8 p.

SILVA, Robson Willians da Costa; FILHO, Walter Malagutti. Cemitérios como Áreas Potencialmente Contaminadas. Universidade Federal de São Paulo. São Paulo. 2016, 10p.

SPRINGER,Kalina Salaib;PÉREZ, Mercedes Solá; JORGE, Camila. Cemitérios: Desvendando os Espaços da Morte e seus Signos. Universidade Federal do Paraná. Paraná. 2005, 11 p.


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Author: Émilin CS

Engenheira ambiental. Têm experiência na área de saneamento e gestão ambiental, buscando soluções usando QGIS e Bizagi. Atua na área de modelagem matemática para rompimento de barragens com software HEC-RAS.

3 thoughts on “O que é Necrochorume e quais são os seus impactos ao meio ambiente?”

  1. Fantástica essa informação.
    Meu pai faleceu recentemente e tenho acompanhado / buscado o que acontece como corpo do indivíduo durante esta fase tão fatídica. Sou professora de Ciências e saber de tais informações tornam esta realidade menos dolorosa, pois novamente a Bíblia tinha razão quando diz que homem vem do pó e volta para o pó. É interessante saber e perceber que somos fábricas de decomposição ao pensar que as nossas próprias biotas servem para devolver a natureza e exercem a função ambiental de regulação na ciclagem de tais nutrientes. A ciência é realmente fantástica. E a religião a única coisa que pode dar paz às nossas almas cansadas e fadadas ao mesmo destino. Muito obrigada pelo artigo. Cientistas movem o mundo através das perguntas.

  2. Muito interessante!!!
    Nunca tinha ouvido falar sobre isso… Até que Ontem em curso, uma pessoa falou sobre a água contaminada até por necrochorume que bebemos. Primeira vez que ouvi essa palavra. Fui pesquisar achei essa matéria, explica muito bem. Nunca parei pra pensar que os cadáveres também podiam contaminar as águas subterrâneas. Não é muito divulgado esse tipo de contaminação. Parabéns! Conseguiu esclarecer minhas dúvidas.

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