Como conservar as nascentes?

Veja a importância das nascentes e como podemos conservá-las.

Sabemos que o Brasil possui 12% da reserva de água doce do mundo, sendo mais de 70% das reservas hídricas do País concentras na Amazônia. Devido a essa aparente abundância, muitas vezes as pessoas tratam esse recurso como se ele jamais fosse acabar. A poluição, desmatamento e uso inadequado do solo são alguns dos principais problemas que nossas águas vem enfrentando.

Embora abundante, com essas ações indevidas, nosso recurso pode ficar escasso, ressaltando cada vez mais a importância da preservação dos rios e nascentes.

O desmatamento, o uso/ocupação irregular do solo e a alteração do solo, devastam as áreas de cabeceira ou de recarga, prejudicando o reabastecimento dos lençóis freáticos, aquíferos e nascentes, contribuindo em grande parte com a redução da quantidade e da qualidade de água disponível.

Nascentes são manifestações superficiais de águas armazenadas em reservatórios subterrâneos.

Para quem não sabe, as nascente são manifestações superficiais de águas armazenadas em reservatórios subterrâneos, chamados de aquíferos ou lençóis, que dão início a pequenos cursos d’água, formando córregos, posteriormente unindo-se para originar os riachos e rios.

Podemos assim afirmar que as nascentes são as nossas “galinhas dos ovos de ouro”, ou seja, são elas que irão garantir água limpa (Isso se a água subterrânea não estiver contaminada) e abundante num futuro próximo. Porém, ao invés de protegê-las, estamos acabando com elas.

A conservação das nascentes está diretamente relacionada à conservação do solo, água e vegetação, ou seja, todos interligados, sendo que qualquer alteração em um desses elementos afeta os demais.

De acordo com Professor Sérgio Luiz de Carvalho da UNESP: “Para a conservação de nascentes e mananciais em propriedades urbanas e rurais, podem ser adotadas algumas medidas de proteção do solo e da vegetação, que vão desde a eliminação das práticas de queimadas até o enriquecimento das matas nativas”.

Ele ainda cita algumas medidas que podem contribuir para a preservação, sendo elas: Conservação do solo; Uso controlado de defensivos; Cercamento das nascentes; Enriquecimento da vegetação; dentre outros. Todas as técnicas de conservação do solo, além de ajudarem a evitar problemas como a erosão e a perda de fertilidade do terreno, colaboram também para manter a provisão de água.

Os cuidados adequados com o solo possibilitam uma maior infiltração d’água da chuva no solo, evitando a perda de água pelo escoamento superficial, além de favorecer o abastecimento dos reservatórios subterrâneos. O solo possui várias propriedades capazes de influenciar esse processo, tais como a porosidade, tortuosidade, textura, dentre outros.

Caso haja uma compactação da camada mais externa do solo, isso reduzirá o volume de poros desta camada, reduzindo sua permeabilidade, ou seja, a água da chuva encontra barreiras, infiltrando pouco no solo, podendo resultar em enxurradas. As medidas aplicadas na conservação do solo ajudam a minimizar essas consequências negativas.

Foulon e Rousseau, pesquisadores do Institut National de la Recherche Scientifique (INRS-ETE), salientam que algumas medidas e técnicas que contribuem para a  conservação do solo e água é o plantio em curva de nível, pois cada linha de plantas forma uma barreira que diminui a velocidade da enxurrada; e o plantio em consórcio o qual intercala faixas de plantas com crescimento denso com faixas de plantas que oferecem menor proteção ao solo. As faixas com plantas de crescimento denso têm a função de amortecer a velocidade das águas da enxurrada permitindo uma maior infiltração de água no solo.

Evitar as queimadas são medidas que, segundo Whitman (pesquisadora da US-EPA) e Cardoso (UNESP), causam sérios danos às florestas e outros tipos de vegetação, pois deixam o solo descoberto, causando a mortandade dos microrganismos e a vida do solo. Este solo sem proteção da cobertura vegetal pode ficar compactado pela ação das gotas da chuva, o que irá reduzir a velocidade e quantidade de infiltração da água, além de favorecer as enxurradas.

Para Cardoso: “O uso excessivo e descontrolado de defensivos agrícolas nas lavouras são grandes agentes de contaminação do solo e da água, principalmente do lençol freático. Por isso, seu uso dever ser controlado e feito sob a orientação de um técnico responsável. Deve-se construir locais apropriados para o descarte das embalagens, as quais jamais devem ser jogadas em rios e córregos ou junto ao lixo comum da fazenda”.

Já o enriquecimento das nascentes faz com que a vegetação do entorno funcione como barreira viva na contenção da água proveniente das enxurradas.

“Deve-se priorizar espécies nativas da região que geralmente são divididas em pioneiras e climácimas. Guapuruvu, bracatinga, orelha-de-negro, amoreira, pitanga, alecrim e sibipiruna são exemplos de espécies pioneiras, ou seja de ciclo de crescimento rápido que produzem uma grande quantidade de sementes, facilitando assim a renovação natural da área plantada, já que possuem duração máxima de 20 anos”, Salienta Cardoso.

Outros cuidados também são importantes. Por exemplo, evitar a construção de currais, chiqueiros, galinheiros e fossas sépticas nas proximidades das nascentes, pois, com a chuva, os dejetos podem contaminá-las. Da mesma maneira, o desmatamento no entorno das nascentes e o acúmulo de lixo nas regiões próximas a elas também precisam de atenção.

De maneira geral, as principais estratégias de preservação das nascentes a serem tomadas, devem englobar pontos básicos como: controle da erosão do solo por meio de estruturas físicas e barreiras vegetais de contenção, minimização de contaminação química e biológica.

Todo e qualquer planejamento, no sentido de conservar ou recuperar uma nascente, tem como princípio básico criar condições favoráveis no solo para que a água de uma chuva possa infiltrar ao máximo e abastecer uma ou mais nascentes que se encontrem associadas a ela.

O processo de recuperação e conservação das nascentes consiste, basicamente, em três fundamentos básicos sendo eles:

  • Proteção da superfície do solo;
  • Criação de condições favoráveis à infiltração da água no solo;
  • Redução da taxa de evapotranspiração.

Já em áreas urbanas, a preservação dos rios e nascente é igualmente importante, onde algumas mudanças simples de hábitos ajudam a mantê-los sempre em bom estado. Por exemplo, você já chegou a pensar que o lixo jogado nas rodovias quase sempre é conduzido para os rios? Portanto, não custa nada guardá-lo dentro de seu veículo para descarta-lo depois de forma correta.

O hábito de jogar bitucas de cigarro nas estradas também é outro problema, uma vez que provoca queimadas que podem atingir as matas ciliares, que são de vital importância para a preservação dos nossos rios.

Diante da atual crise hídrica, essas pequenas ações contribuem muito para a conservação e proteção das nascentes, pois a partir dela outras crises podem surgir, como uma crise energética, de alimentos, e até mesmo, social e econômica.

Contudo, o governo federal deve assumir a liderança com apoio do setor privado e da sociedade e criar um Plano Nacional de Proteção de Nascentes e Mananciais (PNNM).

O Plano deveria iniciar com um mapeamento das nascentes e sistemas de cabeceiras do país e avaliar as condições de degradação, além de identificar sistemas prioritários para intervenções e recuperação.

Em paralelo a isso, deve-se propor um pacto nacional com os Estados e municípios para implementar ações de restauração e preservação das nascentes prioritárias, com metas claras e com urgência para serem iniciadas.

Dessa forma, é preciso entender que precisamos das nascentes e, portanto, cuidar dos bens que nos são essenciais.

Referências:

CARVALHO, Sérgio Luiz de. Medidas de Preservação de Nascentes e Mananciais. UNESP. Disponível em: http://www.agr.feis.unesp.br/jsl01072004.php.

Foulon, Étienne; Rousseau, Alain N. Analyse de la Stratégie de Protection et de Conservation des Soucers Destinées á l’Alimentation en eau Potable.  Institut national de la recherche scientifique (INRS-ETE).Québec, Canadá.2012, 47 p. Disponível em:http://espace.inrs.ca/926/1/R001353.pdf.

HEILPRIN, J., 2002. EPA: Some Rivers in survey, too polluted for swimming, fishing. Ludigton Daliy News. Disponível em:https://www.theatlantic.com/national/archive/2013/03/half-all-us-rivers-are-too-polluted-our-health/316027.

Whitman,. Christine Todd. EPA: Cases in Water Conservation: How Efficiency Programs Help Water Utilities Save Water and Avoid Costs. 2014, 90 P. Disponível em:https://www.epa.gov/sites/production/files/2017-03/documents/ws-cases-in-water-conservation.pdf.



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Author: Émilin CS

Engenheira ambiental. Têm experiência na área de saneamento e gestão ambiental, buscando soluções usando QGIS e Bizagi. Atua na área de modelagem matemática para rompimento de barragens com software HEC-RAS.

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