O que é Poluição da Água e Quais são as suas Causas?

Descubra qual é a definição de poluição da água, quais são as suas causas, como a poluição nos afeta e como podemos evitar a poluição da água.

Antes de começarmos a falar sobre a poluição, é importante deixar claro o que ela é. Para isso, vamos utilizar a Política Nacional de Meio Ambiente (PNMA), ou seja, a lei federal nº 6.938 de 1981.

Em seu artigo nº 3, a PNMA estabelece três conceitos que se entrelaçam, sendo que o terceiro deles (poluição) depende do primeiro (meio ambiente). Os conceitos são:

  • Meio Ambiente: Todas interações e condições que influenciam a vida em suas diferentes formas;
  • Degradação da Qualidade Ambiental: Mudanças negativas que ocorrem no meio ambiente;
  • Poluição: É a degradação da qualidade ambiental oriunda de atividades que resultem na redução de qualidade de vida e atividades da população (humana ou não).

Então, a partir deste conceito, podemos afirmar que qualquer modificação em parâmetros físicos, químicos ou biológicos da água que venham a prejudicar o bem-estar da população, atividades sociais e econômicas, biota, condições estéticas e sanitárias ou de efluentes que estejam em desacordo com a legislação vigente são considerados como poluição da água.

É interessante notar aqui que o conceito de Poluição é diferente de Contaminação.

Vejamos o inciso V do artigo nº 6 da resolução CONAMA nº 420 de 2009, o qual define contaminação como a presença de substâncias químicas no meio ambiente em concentrações tais que o recurso ambiental não possa ser utilizado.

Para deixar bem claro essa diferença, podemos dizer que um rio com valores elevados de Turbidez (um parâmetro físico) esta poluído, mas não contaminado. Porém, se no material particulado presente no rio houver metais pesados adsorvidos, estes podem contaminar e poluir o rio.

Leia também: O que é Turbidez da Água e Como ela afeta o Tratamento de Água?

Agora que sabemos o conceito de poluição, vejamos como ela ocorre.

Como ocorre a poluição da água?

A poluição da água ocorre de diferentes formas conforme a sua origem. Entre as atividades antrópicas que geram impactos à qualidade da água, podemos mencionar as atividades urbanas, industriais e agropecuárias.

Cada um delas têm características diferentes.

Nas atividades urbanas, os esgotos domésticos e resíduos sólidos são as principais fontes de poluentes na água. Quando esgotos domésticos (ou outro efluente com alta carga orgânica) são lançados diretamente nos rios, micro-organismos aeróbios irão decompor a matéria orgânica existente nestes, porém, ao consumir tal matéria orgânica, eles consumirão o oxigênio dissolvido (OD) presente na água, prejudicando outros organismos que também dependem dele.

Cabe lembrar que esse processo natural de decomposição é denominado Autodepuração.

A OD é tão importante que a resolução CONAMA nº357/2005 estabelece que para rios de água doce Classe Especial (classe mais restrita quanto ao uso da água e proteção da comunidade aquática), este parâmetro deve sempre ser sempre superior à 6 mg/l.

Leia também: O que é autodepuração e por que ela é importante?

Além disso, outros parâmetros também estão relacionados à OD, tais como a Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) e a Demanda Química de Oxigênio (DQO).

A DBO é a quantidade de oxigênio necessário pelos micro-organismos para consumir a matéria orgânica presente na água, enquanto a DQO representa essa mesma quantidade, porém decomposta por agentes químicos.

Outros poluentes oriundos dos esgotos também são problemáticos. Por exemplo, o Nitrogênio e Fósforo.

Esses dois elementos são nutrientes para certos organismos aquáticos (exemplo, algas), fazendo com que eles se multipliquem rapidamente e consumam grande parte do oxigênio existente no meio aquático, levando ao problema já mencionado a pouco sobre a falta de oxigênio no corpo hídrico.

Eutrofização é o nome dado ao processo de aumento excessivo da quantidade de nutrientes no corpo hídrico levando à proliferação de organismos aquáticos (plantas e algas).

Mas não é somente os esgotos das áreas urbanas que contribuem com a poluição da água. Os resíduos sólidos também têm sua parte.

Rio Saigon, no distrito de Binh Thanh, cidade de Ho Chi Minh, Vietnã (Foto por Anh Vy no Unsplash).

Eles poluem os recursos hídricos seja pela sua presença nas águas ou pelos lixiviados que são liberados por eles. Nesta situação, podemos colocar que, se forem descartadas incorretamente, baterias, tintas, remédios e outros resíduos sólidos podem liberar metais pesados, contaminantes orgânicos e organismos patogênicos na água.

Agora com relação às atividades industriais, dependendo do ramo, teremos diferentes poluentes.

Por exemplo, a drenagem ácida de mina (DAM) é o principal poluente das águas
na mineração de carvão. Ela é o resultado da oxidação da pirita pelo oxigênio presenta no ar e na água, liberando nos recursos hídricos poluentes como enxofre, ferro e aumentando a acidez.

Leia também: O que é Drenagem Ácida de Mina (DAM)?

Além dos procedimentos convencionais dentro da industria, também há os acidentes, tais como vazamentos e queima de produtos químicos, sendo que estes, embora pontuais, também contribuem significativamente na poluição das águas.

Os resíduos industriais também são igualmente problemáticos, podendo conter contaminantes como metais pesados, contaminantes orgânicos e organismos patogênicos.

Assim como as atividades urbanas e industriais, as atividades agropecuárias também contribuem significativamente para a poluição das águas.

Neste ramo, além dos poluentes que já citados, temos outros mais complexos, tais como defensivos agrícolas, fármacos, hormônios, fertilizantes e outros. Além disso, por não serem fontes pontuais de poluição, e sim, difusas, pouca atenção é dada à esta fonte de poluição.

A poluição da água oriunda da agricultura ainda necessita de estudos específicos, principalmente para determinação da fonte contaminante, contaminantes emergentes, custos e incentivos para adoção de práticas de redução de poluentes.

Evans et al. Agricultural water pollution: key knowledge gaps and research needs. Current Opinion in Environmental Sustainability. Volume 36, Feb. 2019, pg 20-27.

Outro poluente oriundo de áreas rurais são os solos erodidos.

As partículas dos solos podem adsorver diferentes elementos, sendo alguns deles poluentes (tais como metais pesados), e ao serem carreadas pela água das chuvas, elas são misturadas às águas de rios e lagos, poluindo eles com os seus elementos adsorvidos.

Os resíduos gerados na agropecuária envolvem estercos de animais e embalagens de fertilizantes e de defensivos agrícolas (sendo este último normalmente tóxicos e alvo de legislações específicas para retorno da embalagem).

Agora que vimos como algumas atividades antrópicas impactam o meio ambiente, vamos ver como essa poluição afeta os seres humanos.

Como a poluição da água nos afeta?

A água é utilizada de diferentes formas pela sociedade, sendo que podemos citar as seguintes:

  • Abastecimento Público;
  • Recreação (ex. Natação, mergulho e pesca);
  • Irrigação; e
  • Aquicultura.

Observando esses usos, percebemos que a poluição das águas pode nos afetar de formas distintas.

Vamos começar pelo consumo de água não potável.

Ao ingerirmos águas com valores elevados de determinados elementos, nosso corpo irá responder conforme o elemento ingerido. Por exemplo, a ingestão de elevadas quantidades de arsênio pode ocasionar vários tipos de cânceres, principalmente na pele, pulmão, rim e bexiga.

Leia também: O que é Potabilidade da Água? E será que ela é igual nos Outros Países?

Outros metais pesados (tais como cromo e chumbo) também podem ser considerados carcinogênicos, e também temos contaminantes orgânicos como benzeno e benzo[a]pireno que causam efeitos semelhantes.

Contaminações em função de cargas orgânicas (envolvendo coliformes fecais e outros microrganismos) podem resultar em doenças como diarreia, hepatite, cólera e febre tifoide.

No mundo, estima-se que as mortes relacionadas à poluição da água sejam de 1,8 milhões anualmente, sendo que estas mortes acontecem principalmente em países pouco desenvolvidos.

Landrigan et al. Pollution and children’s health. Science of the Total Environment. Elsevier, v.650 – 2, 2019, Pg. 2389-2394.

Se não bastasse esses problemas, a poluição da água também pode comprometer atividades de lazer e até mesmo econômicas.

Despejos com alta carga orgânica podem consumir grande parte do OD presente na água, asfixiando os peixes daquele ambiente. Se há uma grande mortandade de peixes, isso irá prejudicar a pesca local e moradores que dependem dela.

O mau cheiro também pode acontecer nestes ambientes, quando a decomposição aeróbica é substituída pela anaeróbica (sem oxigênio), resultando em gases como sulfeto de hidrogênio, amoníaco e metano.

A criação de peixes, mariscos e outras espécies (aquicultura) necessita de água de qualidade para que estes organismos se desenvolvam por completo, garantindo maior valor agregado no momento da sua venda.

Se as águas desses ambientes estão poluídas, esses organismos podem não se desenvolver ou até mesmo não poderem ser comercializados.

A irrigação é responsável pelo consumo de 70% da água no mundo (Foto porWynand Uys no Unsplash).

Na agricultura também ocorre o mesmo, se a irrigação for realizada com águas poluídas, essa poluição poderá contaminar o solo e impedir o crescimento do cultivo no local, sendo que essa resposta pode ser lenta, pois a quantidade de poluentes na água pode ser pequena, o que acarreta no aumento gradual do contaminante do solo.

A industria também é prejudicada pela poluição da água.

Normalmente ela é colocada como vilã, mas diversos processos produtivos necessitam de água de boa qualidade para serem realizados. Um exemplo esta na produção de cervejas, onde a água é uma das matérias-primas. Nela, a água deve ser potável e livre de patógenos e seu pH deve ser cuidadosamente monitorado. Além disso, a presença de elementos como ferro e manganês podem dar gostos e coloração indesejáveis à cerveja.

Na industria de fertilizantes, a água é utilizada como reagente. Por exemplo, para a produção de ácido nítrico usando a oxidação do gás amônia é necessário o uso da água para reagir com o dióxido de nitrogênio.

V.V. RANADE e V.M. BHANDARI. Industrial Wastewater Treatment, Recycling, and Reuse. Elsevier. 2014. 577 p.

A poluição da água nos afeta de várias formas, cabendo a todos nós o papel de evitá-la, mas como podemos fazer isso exatamente?

Como evitar a poluição da água?

Há duas abordagens para evitar qualquer tipo de poluição (inclusive poluição na água), temos ações preventivas, que são realizadas para que o poluente não seja gerado e ações de controle (end of pipe / fim de tubo), onde são realizados processos para impedir que o poluente chegue no meio ambiente.

Para os esgotos, seu tratamento é realizado por meio de sistemas de esgotamento sanitário.

Nas áreas urbanas, são construídas redes de coleta de esgoto, onde cada morador deve construir sua ligação na rede. Todo o esgoto coletado nesta rede é então direcionado para as Estações de Tratamento de Esgoto, onde são removidos os poluentes deste efluente para depois o efluente tratado ser descartado no corpo hídrico mais próximo.

Nas áreas rurais, normalmente são construídas fossas, filtros e sumidouros, onde o esgoto passa por um tratamento simplificado e depois ele infiltra no solo.

Nas industriais, diversos métodos de tratamento de efluentes podem ser propostos para que as concentrações dos poluentes sejam removidas ou reduzidas à concentrações permitidas pela legislação.

Vista aérea de uma estação de tratamento de esgoto (Foto por Ivan Bandura no Unsplash).

Na literatura de tratamento de efluentes (especificamente para esgotos domésticos), costuma-se separar os tipos de tratamento da seguinte forma:

  • Tratamento Preliminar: Tratamento realizado para remoção de sólidos suspensos mais grosseiros (de maior tamanho);
  • Tratamento Primário: Este tratamento visa remover os Sólidos Sedimentáveis e parte da matéria orgânica existente no efluente;
  • Tratamento Secundário: Tratamento que tem como objetivo a remoção da matéria orgânica restante e, em algumas situações, a remoção de nutrientes como nitrogênio e fósforo;
  • Tratamento Terciário: Tratamento para remoção de poluentes específicos ou ainda remoção complementar dos poluentes não removidos no tratamento secundário.

Note que as primeiras etapas de tratamento removem mais poluentes relacionados aos esgotos domésticos, sendo o tratamento terciário o adequado para os efluentes industriais, em função dos seus poluentes específicos. Porém, isso não significa que um industria não precise incluir as primeiras etapas, tudo dependerá dos poluentes existentes em seu efluente.

Além disso, outras formas de evitarmos na industria (e quando aplicável, nas áreas urbanas) a poluição da água é por meio da redução do seu consumo e reuso (quanto menos utilizar, menos efluente será gerado).

Cabe salientar que muitos processos de tratamento de efluentes geram lodos, os quais devem ser corretamente destinados, assim como os resíduos sólidos.

A destinação correta dos resíduos sólidos para aterros sanitários é uma das formas de evitar a poluição dos recursos hídricos.

Por exemplo, os resíduos industriais, se não forem reaproveitados, devem ser descartados em aterros industriais (que são diferentes dos aterros que recebem resíduos sólidos urbanos).

Lembrando que a verificação se um resíduo deve ou não ser encaminhado para um aterro industrial é realizada seguinte as seguintes normas:

  • NBR 10.004: Estabelece o procedimento para classificar resíduos conforme sua inflamabilidade, corrosividade, reatividade e patogenicidade;
  • NBR 10.005: Define como obter extrato lixiviado de um resíduo;
  • NBR 10.006: Define como obter extrato solubilizado de um resíduo;
  • NBR 10.007: Estabelece procedimento para amostragem de resíduo sólido.

O resultado da classificação pode ser Classe I (Resíduo Perigoso, ou seja, vai para o Aterro Industrial), Classe IIA (Resíduo Não-perigoso e Não-inerte) e Classe IIB (Resíduo Não-perigoso e Inerte).

Leia também: 8 Tipos de Resíduos e Como fazer seu Gerenciamento

Muitos dos tratamentos e processos apresentados para áreas urbanas e industrias também podem ser aplicadas na agropecuária para evitar a poluição da água. Além disso, processos de conservação e manejo adequado do solo e dos insumos aplicados devem ser realizados para minimizar os impactos ambientais.

Note que há várias formas de evitarmos a poluição das águas, seja contratando um profissional para o diagnóstico e tratamento do efluente gerado, seja reduzindo seu consumo em nossa residências.

Assim, de forma a garantir que o crescimento sustentável, vários profissionais se habilitam para evitar que a poluição da água, sendo o Engenheiro Ambiental um deles, e você também pode contribuir na sua casa e onde você trabalha e também divulgando nosso artigo. Compartilhe.

Referências Consultadas.

BARROS. R.T.V. et al. Manual de Saneamento e Proteção Ambiental para os Municípios - Volume 2: Saneamento. Belo Horizonte: Escola de Engenharia da UFMG, 1995. 221 p.

BRAGA. B. et al. Introdução à Engenharia Ambiental. 2 ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2005. 318 p.

MATOS. A.T.. Poluição Ambiental: Impactos no Meio Físico. Viçosa, MG: Editora UFV, 2010. 260 p.

National Water Quality Management Strategy. Australian Drinking Water Guidelines 6 2011. Disponível em: <http://www.iwa-network.org/filemanager-uploads/WQ_Compendium/Database/Selected_guidelines/003.pdf>. Acesso em 04 março 2019.

VILHENA, A. (Coord.), Lixo Municipal: Manual de Gerenciamento Integrado. 3 ed. São Paulo: CEMPRE, 2010. 350 p.

WUNDERLICK, S.; BACK, W. 1 - Overview of Manufacturing Beer: Ingredients, Processes, and Quality Criteria. Beer in Health and Disease Prevention. 2009, pg. 3-16.


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Author: Fernando BS

Engenheiro Ambiental e de Segurança do Trabalho. Atua nas áreas de recuperação ambiental, geoprocessamento e ciência do solo. Busca soluções utilizando softwares como ArcGIS, R e MATLAB.

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