7 Impactos Ambientais que estão mudando os Grandes Rios do Mundo

Mesmo com volumes de água elevados, diferentes grandes rios do mundo sofrem diversos impactos ambientais que estão comprometendo sua qualidade. Descubra quais impactos são esses.

Grandes rios foram berços de várias sociedades em diferentes continentes. Sua relação com as populações que nele habitavam (ou ainda habitam) envolve fornecimento de água para produção de alimentos, produção de energia e transporte fluvial.

Mesmo assim, por atravessarem mais de uma fronteira, tais rios podem trazer tanto benefícios como conflitos para os seus usuários, seja em função das suas características ambientais ou de sua dependência econômica.

Jim Best (2019) coloca que dos 24 grandes rios que ele analisou, 15 deles demonstram alta dependência econômica pelos seus usuários.

“Ao permanecer na foz de tais rios, temos uma espécie de conexão espacial realizada pelo rio, ligando água, sedimentos, ecologia, culturas e relevo.”

(BEST, 2019)

Os grandes rios estão sujeitos a vários impactos naturais que vêm moldando sua configuração ao longo dos anos, porém, diante de inúmeras atividades antrópicas realizadas ao longo dos seus cursos, os grandes rios têm sofridos impactos cada vez maiores.

Desta forma, iremos apresentar nesta postagem esses principais impactos.

Barragens

As barragens ocupam extensas áreas em função dos seus barramentos e suas áreas inundadas, gerando diferentes tipos de impactos no ambiente que se encontra instalada.

Normalmente, tais barragens são construídas para geração de energia, sendo que 16% da energia mundial é fornecida por hidroelétricas. Entretanto, a finalidade delas pode ser múltipla, sendo também utilizada para irrigação, controle de enchentes e fornecimento de água potável.

Barragem Holyoke nos EUA (Foto por American Public Power Association no Unsplash).
Barragem Holyoke nos EUA (Foto por American Public Power Association no Unsplash).

Mesmo diante da crescente demanda de energia, a construção dessas barragens em grandes rios traz impactos como fragmentação de ecossistemas, mudanças nos habitats, regime hidrológico e no fornecimento de sedimentos, bem como na segurança hídrica e alimentar.

Além de citar os impactos causados por barragens na bacia hidrográfica do rio Amazonas, Best (2019) conta a história do rio Amarelo (Huang He), onde devido às atividades de conservação do solo e barramentos, houve uma redução significativa do aporte de sedimentos em sua foz, gerando impactos como redução da cota do leito (reduzindo assim a probabilidade de inundação de canais periféricos) e alteração do regime de avanço e recuo do lóbulo de sedimentos no delta.

De forma a evitar tais impactos, são indicados abordagens integradas de gestão, envolvendo agencias governamentais, setor elétrico, pesquisadores e a comunidade. Ou ainda, o uso de ferramentas como o Índice de Vulnerabilidade Ambiental para Barragens (Dam Environmental Vulnerability Index – DEVI), proposto por Edgardo M. Latrubesse e colaboradores.

Mudanças Climáticas e Inundações

Diante das mudanças nas características climáticas de várias regiões, eventos extremos de precipitação terão maior probabilidade de ocorrência, alterando funções ecológicas, fluxos de sedimentos e impactando as populações expostas.

Em alguns cenários climáticos, estudos apontam que a ocorrência de inundações com períodos de 100 anos terão suas probabilidades aumentadas e projeções apontam que o tamanho desta inundação irá aumentar até o final do século 21.

Além disso, o derretimento da cobertura de gelo de montanhas que alimentam grandes rios também mudarão, impactando o regime hidrológico destes rios. Tais mudanças impactarão em bacias hidrográficas onde há captação de recursos hídricos para irrigação e abastecimento.

Pico Salcantay na Cordilheira dos Andes (Foto por Sergei Akulich no Unsplash).
Pico Salcantay na Cordilheira dos Andes (Foto por Sergei Akulich no Unsplash).

Poluição

Desde os primórdios, rios são constantemente utilizados para a disposição de diferentes tipos de resíduos, sendo que, mesmo grandes rios, atualmente, encontram-se com sua qualidade bastante deteriorada.

No relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), ao avaliarem a qualidade dos rios ao redor do mundo, dois tipos de contaminantes foram considerados:

  • Nutrientes (Nitrogênio e Fósforo);
  • Patógenos.

Tal relatório apresentou que 80% dos rios estão severamente contaminados por tais elementos.

O problema dos rios poluídos pode ser facilmente compreendido utilizando como exemplo o rio Ganges, na Índia, o qual abastece mais de 40% da população indiana e que encontra-se poluído por coliformes fecais, pesticidas e metais pesados. Somado a isso, têm-se ainda eventos religiosos onde os praticantes se banham em suas águas, fornecendo quantidades significativas de materiais fecais e turbidez ao rio e expondo seus praticantes às águas contaminadas.

O Kumbh Mela é o nome dado à peregrinação em massa hindu onde seus praticantes se reúnem para se banhar nas águas do rio Ganges. Estima-se que, em 2013, mais de 120 milhões de peregrinos tenham visitado o evento em um período de 55 dias.

Kumbh Mela, WIkipedia.

Outros poluentes e alterações presentes nas águas destes rios são os micro e macro plásticos e a variação de temperatura.

Transferência de Água

A partir do momento que a necessidade de água é maior que a quantidade de água disponível na bacia hidrográfica, projetos de diferentes áreas começam a surgir para tentar equilibrar esse balanço.

Um exemplo disso no Brasil é a transposição do rio São Francisco na região nordeste. O pesquisador Philippe Roman (2017) aborda a temática sob a perspetiva econômica, política e ambiental, pois mesmo depois de 10 anos de projeto, este ainda não foi finalizado.

Segurança hídrica é manter sempre positivo a diferença entre disponibilidade de água e seu consumo (Foto por Fikri Rasyid no Unsplash).
Segurança hídrica é manter sempre positivo a diferença entre disponibilidade de água e seu consumo (Foto por Fikri Rasyid no Unsplash).

Usualmente, tais projetos visam auxiliar as demandas da irrigação, controlar enchentes, melhorar a produção de alimentos e o saneamento e gerar energia. Embora possam solucionar o problema a curto prazo (e a custos elevados), esses projetos podem impactar negativamente na biodiversidade a jusante, ocasionar intrusão da cunha salina (em áreas litorâneas) e mudanças no regime hídrico.

Introdução de Espécies Exóticas

A presença de espécies não-nativas (exóticas) pode impactar os ecossistemas que ela se encontra de diferentes formas, tais como:

  • Redução da população das espécies nativas
  • Disseminação de “novas” doenças.

Na bacia hidrográfica do rio Mississippi, estima-se que 80% das espécies de alguns dos seus afluentes seja de carpas asiáticas (espécie exótica), o que ocasionou uma grande mudança ecológica com consequente aporte financeiro para tentar solucionar o problema (e.g. Barreiras elétricas para peixes e Canhões d’água submersos).

Fragmentação de Rios

Este impacto esta relacionado à outros que já comentamos, como as Barragens, Construção de Canais, Modificações no Regime Hidrológico, Poluição e Introdução de Espécies Exóticas.

Embora alguns rios tenham sua fragmentação realizada por fatores naturais (cachoeiras, cascatas e cânions), as ações antrópica já citadas contribuem para diferentes impactos ecológicos, sendo que, atualmente, estima-se que tais impactos sejam subestimados.

Cachoeira Seljalandsfoss na Islândia (Foto por Robert Lukeman no Unsplash).
Cachoeira Seljalandsfoss na Islândia (Foto por Robert Lukeman no Unsplash).

De forma a avaliar tais impactos, é possível utilizar índices para selecionar a alternativa menos danosa ao meio ambiente e mais viável economicamente. Günther Grill e colaboradores (2015) desenvolveram uma matriz que cruza dois índices (Índice de Fragmentação de Rio e o Índice de Regulação do Fluxo do Rio) para avaliar o impacto da construção de barragens.

Existem ainda pesquisadores, como a Daniela Guzzon Sanagiotto (IPH-UFRGS), que trabalham para minimizar alguns desses impactos por meio de mecanismos de transposição de peixes em barragens. Em um dos seus trabalhos, ela orientou a aplicação de modelos numéricos para estudar como ocorre o escoamento nestes mecanismos.

Dragagem de Sedimentos, Mineração e Erosão das Margens

A remoção de sedimentos para uso na construção e para melhorar a navegabilidade de grandes rios traz consigo impactos como alteração no fluxo de sedimentos e no regime hidrológico local (especialmente quando existirem zonas úmidas).

Além desses impactos, outros também são sentidos a jusante, envolvendo a remoção de sedimentos, piora dos efeitos de subsidência nos deltas dos rios, remoção do leito em estrutura físicas (scour) e desmoronamento das margens.

O desmoronamento das margens não prejudica somente o meio ambiente, mas também impacta as infraestruturas locais e as vidas das populações que vivem nas proximidades dos rios.

Residências construídas na beira do rio no Vietnã (Foto por Jordan Opel no Unsplash)
Residências construídas na beira do rio no Vietnã (Foto por Jordan Opel no Unsplash).

E estes são os principais impactos que estão ocorrendo nos nossos grandes rios e estes tenderão a aumentar cada vez mais, principalmente se considerarmos que a população e as demandas econômicas continuam aumentando.

Uma forma de evitá-los é por meio de políticas públicas integradas com vários setores da sociedade, empresarial e público (comissões), mesmo para rios transfronteiriços (o que envolveria diferentes países) e pela implementação de ferramentas que auxiliem e melhorem a qualidade ambiental dos rios.

Alguns exemplos de comissões de rios transfronteiriços são:

Além das ferramentas já citadas ao longo da postagem (como os índices usados em barragens), missões de novos satélites para monitoramento por sensoriamento remoto também prometem ajudar na gestão desses rios, bem como modelos matemáticos mais apurados e a determinação da vazão ambiental.

Fontes Consultadas.

BEST. J. Anthropogenic Stresses on the World's Big Rivers. Nature Geoscience. v. 12. 2019. pg. 7-21. Disponível em: <https://www.nature.com/articles/s41561-018-0262-x>. Acesso em 03 jan. 2019.

GRILL, G. et al. An index-based framework for assessing patterns and trends in river fragmentation and flow regulation by global dams at multiple scales. Environmental Research Letters. v. 10. 2015. Disponível em <http://iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/10/1/015001/>. Acesso em 18 jan. 2019.

LATRUBESSE, E.M. et al. Damming the Rivers of the Amazon Basin. Nature. v. 546, 2017. pg. 363-369. Disponível em: <https://www.nature.com/articles/nature22333>. Acesso em 13 jan. 2019.

ROMAN, P. The São Francisco Water Transfer in Brazil: Tribulations of a Megaproject through Constraints and Controversy. Water Alternatives. v.10, 2017, pg. 395–419. Disponível em <http://www.water-alternatives.org/index.php/alldoc/articles/vol10/v10issue2/361-a10-2-11>. Acesso em 18 jan. 2019.



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Author: Fernando BS

Engenheiro Ambiental e de Segurança do Trabalho. Atua nas áreas de recuperação ambiental, geoprocessamento e ciência do solo. Busca soluções utilizando softwares como ArcGIS, R e MATLAB.

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