É possível gerar Energia Elétrica a partir do Esgoto?

Veja como esse procedimento pode ser realizado e alguns exemplos no Brasil e ao redor do mundo sobre a geração de energia a partir do biogás do esgoto.

Podemos definir esgoto como toda água oriunda dos processos industriais, residenciais e redes pluviais, sendo que para cada processo, existem a formação de substâncias diferentes e consequentemente tratamentos e sistemas específicos para trata-los.

Rede Esgoto – Ilustração SABESP

Segundo dados do Instituto Trata Brasil de 2018, apenas 45% do esgoto é tratado no Brasil, em outras palavras, 55% ainda é despejado no meio ambiente, vindo a poluir rios, lagos e até mesmo o solo.

Vale salientar que em 2015, o Brasil se comprometeu com a Organização das Nações Unidas – ONU em elevar o nível de atendimento de esgotamento sanitário no Brasil para 100% da população até 2030.

Mas enquanto esperamos que isso ocorra, podemos pensar em outras formas de tornar isso viável, como é o caso da geração de energia por meio do esgoto.

Energia do Esgoto no Brasil

A pioneira em geração de energia proveniente do esgoto foi a Estação de Tratamento de Esgoto – ETE  Alegria, situada no bairro Caju, zona norte do Rio de Janeiro, em 2005.

A iniciativa foi desencadeada pelo Centro de Pesquisas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ em parceira com Schittini e Pereira, sócios da empresa Acesa, por meio de um projeto piloto instalado na ETE.

ETE Alegria – RJ.

Para transformar esgoto em energia, ocorre a separação dos resíduos (lixo e lodo) da água, em seguida, o lodo do esgoto passa por processos de tratamento físico e biológico, sendo então utilizado para produção de biodiesel e biogás.

O lodo gerado no processo gera biogás e escuma (gordura), onde uma parte serve para mover as usinas da ETE e a outra parte, é então enviada às centrífugas e unidades de secagem (remove 70% da umidade).

Posteriormente, esse lodo é condensado em pellets, formando um resíduo seco, livre de patógenos, o qual pode ser utilizado como fertilizante ou transformado em carvão.

E desde a instalação da ETE Alegria, muitos estudos e sistemas vem sendo desenvolvidos e instalados no Brasil.

Como é o caso da Usina de Energia Elétrica do município de Feira de Santana – Bahia. A energia gerada na usina é produzida através do biogás gerado no tratamento de esgoto realizado na Estação Jacuípe II.

Segundo o Governador Rui Costa:

Com o gás metano resultante da decomposição da matéria orgânica existente no esgoto doméstico, a usina está gerando energia necessária para acionar boa parte dos equipamentos eletromecânicos da estação. O investimento foi da ordem de R$ 4,6 milhões, sendo que R$ 3,6 milhões são provenientes do Programa de Pesquisa e Desenvolvimento da Coelba, aprovado pela Aneel, agência reguladora do setor elétrico, e R$ 840 mil são recursos próprios da Embasa.

O projeto possui fatores positivos como a diminuição do consumo de energia elétrica gerada pela ETE (redução de R$26 mil para R$5 mil por mês) e a diminuição do volume de gás poluente lançado na atmosfera.

Outro exemplo de cidade que vem investindo nesta tecnologia é a cidade de Curitiba.

A cidade de Curitiba gera em média 350 toneladas de lodo oriundo do tratamento que ocorre nas ETEs. Lá, o projeto iniciou na ETE de São josé dos Pinhais no ano passado (2017) e é oriundo da parceria entre a Sapenar com a Cattaline Bioenergia.

O vídeo abaixo mostra a reportagem completa.

Recentemente, a cidade do Paraná, em parceria com a CS Bioenergia, recentemente divulgaram que estarão colocando em funcionamento a primeira usina de biogás que transforma lodo de esgoto e resíduos orgânicos em energia para abastecer as residências da região.

Segundo o Engenheiro da CS Bioenergia:

A usina tem capacidade para produzir 2,8 megawatts de eletricidade por meio de lixo, que abastecerá cerca de duas mil residências do Estado.

Vale salientar que a matéria-prima virá de ETEs e Concessionárias de Coleta de Resíduos.

Podemos observar, que essa solução vem sendo apontada e discutida como uma solução ambiental, técnica e financeira viável para as próximas décadas no Brasil, ou seja, possui um alto potencial de desenvolvimento.

Energia do Esgoto em Outros Países

A cidade de Didcot, no Reino Unido, vem utilizando a energia gerada do esgoto de sua ETE para o abastecimento de aproximadamente 200 residências. Essas residências vem utilizando a energia para  manter seus radiadores de calefação (aquecedores) funcionando.

De acordo com os pesquisadores da British Gas:

Essa produção de energia do biogás é derivada do metano, o gás que resulta da decomposição anaeróbia de tais compostos. Uma das vantagens de tal processo é destinar o metano, gás-estufa cujo efeito é 23 vezes mais impactante ao meio ambiente do que o dióxido de carbono (CO2), à uma atividade doméstica (aquecimento), além de gerar mais economia nas contas de energia.

Cidades na Alemanha e Hong Kong também vem investindo em pesquisas e melhorias para gerar energia proveniente do esgoto.

Em Hong Kong, por exemplo, eles vem ampliando suas turbinas para gerarem 700 kW/h e obterem uma redução anual de 560 kg das emissões de dióxido de carbono.

Quando a Alemanha em 2011 anunciou o fechamento de todas as suas usinas nucleares até o ano de 2022, ela vem desde então buscando alternativas e outros meios de gerar energia e uma destas alternativas é a geração de energia a partir do esgoto.

A primeira cidade utilizar esta tecnologia é a cidade de Hamburgo, que busca abastecer seus 2.000 habitantes com a energia proveniente do esgoto. Segundo o Engenheiro Responsável pelo projeto:

A população gasta menos, os rios ficam limpos e não há emissão de gases que provocam o efeito estufa. Um projeto em que todo mundo ganha.

A ideia é que o projeto se estenda por toda a Alemanha, principalmente nos bairros pobres. Outro exemplo de cidade que vem gerando energia por meio do esgoto é a cidade de Estrasburgo, situada no Leste da França.

Nesta cidade, existe um projeto piloto desde 2014 chamando Biovalsan.

Projeto Biovalsan.

Esse projeto tem parceria do Programa Life com um grupo de parceiros da Comunidade Européia e produz atualmente 3,5 milhões de m3 de biometano e cerca de 18 GW/h, o que equivale ao abastecimento de 5.000 residências.

O projeto visa produzir mais de 1,6 milhões de m3 de biometano por ano, produto este que será utilizado para produzir energia e consequentemente abastecer as residências da cidade.

Acompanhe vídeo sobre o projeto realizado pelo canal do Professeur Feuillage.

Vale salientar que este projeto é pioneiro na França, ajudando a tornar Estrasburgo a comunidade com a maior taxa de gás “verde”, contribuindo assim com o meio ambiente e com a economia local.

Com o tempo, a implantação e utilização da energia proveniente do esgoto será uma alternativa viável e comercialmente inserida em nossas residências, seja no Brasil ou em outros países.

No Brasil, embora os projetos ainda estejam em estudo e sirvam apenas para abastecer as próprias ETEs, eles podem se tornar uma alternativa que entrará definitivamente no planejamento energético oficial e que tem grande potencial de desenvolvimento.

E quem sabe pode ser uma solução para suprir as metas que o Brasil tem que atingir até 2030 no que refere-se ao tratamento do esgoto.

Caso você tenha alguma dúvida ou algo a acrescentar para a postagem, comente logo abaixo.



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Author: Émilin CS

Engenheira ambiental. Têm experiência na área de saneamento e gestão ambiental, buscando soluções usando QGIS e Bizagi. Atua na área de modelagem matemática para rompimento de barragens com software HEC-RAS.

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